Identificar com precisão o que está acontecendo com a Poesia
Contemporânea, multiplicada à exaustão de suas infinitas
capacidades sensoriais e servida por um parque de diversões totalmente
multimidiado, é como jogar dominó com pedras hiperfragmentadas,
oferecidas a jogadores que não desejam restringir seus lances a nenhuma
regra, nem submeter suas subjetividades egocêntricas a qualquer identidade
factível de ser controlada por poderes que se estabelecem à revelia
de seus desejos pessoais. Sem vencedores ou vencidos, sem começo ou
fim e fora dos parâmetros das trivialidades domesticáveis, o que
está em funcionamento neste território arredio à lógica
não carece de conceituações, modelos ou metodologias acadêmicas;
sem falar que o controle de seus conteúdos pode ser monitorado por índices
ideológicos institucionais à mercê dos programas do estado,
mesmo quando representado pelo viés do setor privado, receptor de incentivos
pra lá de combinados. O
fato de rejeitar fundamentalismos tem a ver com as transformações
ocorridas no cenário geopolítico do século passado, confirmando
que este é um século que, apesar da inócua evidência
dos pós-modernismos, ainda está por ser inventado. Já
a tendência de tratar a história como se fosse um mero arquivo cumulativo
de temporalidades fenomenológicas que se sucedem ao acaso; longe de ser
atestado como vetor de uma revolução embrionária (capaz de
aperfeiçoar tanto o mundo, quanto o homem que não para de modificá-lo),
do ponto de vista estético, não passa de uma postura arrivista e
conservadora, consubstanciada nos escombros das utopias deixadas ao relento pela
Glasnost (do russo: transparência) e sua irmã gêmea, a Perestroika
(do russo: reconstrução). O resultado deste desmonte é
um paradoxo que não pára de se expandir: depois da guerra fria e
do fim das ditaduras no cone sul das Américas, surgiu no falso conforto
da democracia neoliberal, sustentada por sufrágio universal, uma liberdade
sem sujeito, na qual o movimento das idéias concentra-se num sujeito cheio
de liberdades. Investigar a produção de Poesia
Contemporânea num universo em que as contingências sócio-dinâmicas
submetem o engenho humano a forças tão anárquicas é
quase similar a realizar uma autópsia num cadáver que acabou de
ser integralmente cremado. Um
ambiente entrópico, no qual as liberdades parecem acomodadas num divã
psicanalítico vomitando idiossincrasias e debochando da ética, não
permite que sejam compatibilizadas as ofertas do tempo presente (com seus correlatos
futuros e passados) com as demandas do dia-a-dia das sociedades civilizadas. Zombando
com uma soberba inestimável das urgências e atrasos exigidos por
uma realidade confusa que a tudo compacta e absorve, fica tão dramático
quanto insólito insistir em exibir a intensidade das faltas e a insatisfação
dos desejos através de ferramentas como um verso ou um texto em prosa. Deve
ser por conta desta mórbida esperança sem opções,
absolutamente manipulada pelos meios de comunicação e pronta para
ser digerida pelo lumpesinato de todas as camadas sociais, que a Poesia
Contemporânea tende a traduzir em sua produção
atualizada, uma objetividade que generaliza tudo que for para consumo imediato,
tornando epifânica qualquer coisa que o mercado eleger como sucesso pragmático.
Em circunstâncias como essas, a fragmentação do óbvio
supera qualquer posicionamento crítico; bem como a auto-crítica
de quem está submisso às tais leis do mercado, sem recursos dialéticos
e insuflada por uma busca de prazer a todo custo, vai acabar espelhando um Narciso
que se identifica com o peixe que ele acha que vive no lago, apesar das águas
poluídas e turbulentas que fazem seu espelho clássico parecer mais
com um caleidoscópio do que com uma fotografia de sua cara descarada.
O neonarcisismo destes tempos vadios impõe uma beleza que está
muito aquém das facilidades funcionais (quer oferecidas como entretenimento,
quer incorporadas às múltiplas faces da cultura) que até
ao olhar escapam, quando não o cegam com um cisco capaz de comprometer
toda a maravilhosa operação das retinas. Ofertada com a gratuidade
a que está condenada com uma produtividade quantitativa superior a qualidade
dos conteúdos realizados, a Poesia Contemporânea
tornou-se uma ineficaz anestesia para uma dor que superestima coisas tão
passivas como a PAZ, contemplando-se a si mesma com se fosse uma violência,
na qual há uma exigência por segurança que nenhuma utopia
seria capaz de sustentar. Acaso
houvesse outra configuração para o território mapeado, o
posicionamento dos poetas poderia ser bem diferente. Por exemplo: a insegurança,
esse demônio associado à idéia de que todas as mazelas deste
mundo estão submetidas à Lei de Murphy, instigaria a Poesia
Contemporânea a se questionar quando visse seguranças
contratados presentes em tudo que é festa ou acontecimento social relevante:
como será que essa força de ataque, domesticada pela urgência
de empregos e sub-utilizada para agir como uma falsa força de defesa, reagirá
num momento de crise social? Você não acha que há algo de
errado nisso, depois que o cidadão comum escolheu proibir a venda de armas
nas ruas, votando sobre um assunto referendado sabe-se lá por quê?
Em meio a esse sórdido tiroteio de balas perdidas, algo me diz que
a Poesia Contemporânea é uma
criança que não gosta de estudar: já sabe tudo e nada mais
quer acrescentar, comunicando-se como um hiper-ativo tão travesso que,
brincando consigo mesmo, vê a vida como se ela fosse um brinquedo que, ao
custo das depressões e do desassossego, só há de se quebrar
quando lhe matar... Politicamente falando, premente às coordenadas
de tempo fixadas neste ano de 2008, a produção poética contemporânea,
isenta das censuras da ditadura e da geopolítica da guerra fria, mesmo
agindo num território de liberdades utilitárias e razoavelmente
confiáveis, apresenta-se como o indicador de uma inquietação
instigante que, apesar dos desconfortos, ainda é muito pouco percebida.
Releve-se o fato de que a prática da dialética esteja temporariamente
de molho e que a democracia em funcionamento seja satisfatória. Mesmo
que à base de poemas frágeis e atitudes mais levadas à bagunça
do que ao colapso de instituições repressoras, a produção
poética dos dias de hoje, com toda a barafunda ideológica e muita
desatenção aos fatos e acontecimentos, está pondo na berlinda
justamente o ideal que levou muita gente à luta armada por justiça
e igualdade: a LIBERDADE. Não é à toa que todas as
possibilidades disponíveis tornam quase impossível aumentar a capacidade
do ser humano de desfrutar e alcançar a felicidade. Parece inacreditável,
mas a Poesia Contemporânea tem uma fome
que cresce cada vez que é alimentada... NOTA
1 na falta das utopias: um livro, um filme ou uma peça de teatro.
Na falta das ideologias: uma idéia ou uma filosofia. Na falta da doutrina:
a poesia ...só a poesia!
...ah,
como será importante esta Poesia que vai aos livros, que se entrega aos
microfones: como é sonsa e magnífica. No fundo, tende às
imagens e ao exercício de uma rebeldia sem causa flagrante nos histéricos
que, aos gritos, propagam sua existência como sinais de um sonar. A Poesia
nunca foi uma técnica nem jamais há de se controlar: não
adianta segurar que ela acaba dando um troço. Desde os gregos que
se sabe: na dor e na morte existe um filamento de vida tão incandescente
que é capaz de lançar luz onde só há escuridão.
Nem os deuses das mais primitivas religiões duvidam que viver é
extremamente perigoso, e que o perigo está latente em tudo aquilo que se
quer controlar. O Poema Contemporâneo,
mimesis contraditória de clichês românticos e clássicos,
está sendo bem dito mesmo quando é maldito. Rejuvenesceu tanto que
se infantilizou, externalizando opiniões sobre patologias transitórias,
num tempo em que até o caráter tem seu preço fixado pelo
mercado. Apesar de todas as suas deficiências e inaptidões morais,
bem ou mal, em círculos bem restritos, os poemas têm contribuído
para impedir que se propaguem diagnósticos para essas patologias inverossímeis
que venham a inventar doenças para remédios que acabaram de ser
criados. Drogas prontas para fazerem ações de laboratórios
multinacionais subirem nas bolsas globalizadas, garantindo hipocritamente empregos
e salários para um contingente de gente doida por trabalho... O
Poema Contemporâneo, escriturado como quem desenha bichinhos
nas paredes de uma caverna, muda constantemente quando é falado; mesmo
que os surdos os absorvam como ruídos incidentais de uma ligação
telefônica grampeada. A Poesia Falada,
constante na maioria dos saraus em curso em várias cidades, é um
fenômeno global com a capacidade de editar conteúdos ao vivo, em
pleno trânsito das leituras. E não é só essa particularidade
estilística que potencializa sua presença nas sociedades contemporâneas.
Já surgiram até os que fazem dos versos de outrem material de
referência pessoal, transferido ao público laico como índices
de capacitação individual. Mas, nada se compara a um pequeno detalhe:
nos anos da guerra fria, era significativamente mínimo o números
de mulheres tomando a palavra em saraus. Hoje, elas não só dividem
meio a meio o espaço de atuação como são infinitamente
mais enfáticas na difusão de idéias. Hoje, diante de certas
poetas (poetisa é um termo que não serve mais para identificá-las),
quem fica de saia justa é o Clube do Bolinha, incluindo os gays e suas
catervas especiais... Girando
aleatoriamente a metralhadora cheia de lágrimas, pode-se afirmar que O
Poema Contemporâneo é um cão danado que sai de
todos os cantos da cidade abanando o rabo, apresentando o neném ao útero
fecundado e a cova ao cadáver mumificado. É átomo submetido
à fissão à frio, criando calores que podem endurecer um pênis
e fazer uma vagina lubrificar-se com óleos e suores, fazendo o pecado esquecer
sua culpa e desculpar aquele que o praticar de modo voluntário. Sexy como
um gibi do Carlos Zéfiro (hoje vendido até em sebos de luxo), o
Poema Contemporâneo, dependendo do freguês e da ocasião, é
tão oral quanto anal... A modernidade do
Poema Contemporâneo é camaleão andando em arco-íris;
vídeo caseiro no You Tube, podcast no iPod, texto num palm-top. Se virar
livro, só publicará seu desejo velado de estar sendo publicado.
Gosta de música, vai ao cinema, anda no teatro e, botando o galho dentro,
dança sem perder o rebolado. Do jeito que a coisa vai, Poesia é
algo que está se multiplicando na grande rede mundial à revelia
dos puros e contando com a ingenuidade dos putos, na hora dos recreios das escolas.
O Poema Contemporâneo desembestou
e está pondo fogo na lona do circo. É assim mesmo: esdrúxulo,
metido, desaforado, profícuo, maluco, irado, besta, burro, endemoniado.
Não quer fazer do poeta um artista, um intelectual. Nem guru nem mago.
É pura cartografia de um mundo que demanda novos mapas, onde cidades inteiras
estão para ser fundadas; países exigem novas capitais; rios desejam
se atirar em cachoeiras e estradas necessitam ser traçadas, mesmo que saindo
de lugar nenhum e chegando ao nada... O
Poema Contemporâneo é hiper-ativo, vagabundo, cheio de
rimas pobres e versos que não valem sequer um tapa na cara. Não
fornece dados empíricos para que nenhum saber possa assimilar seus conteúdos
vagos, criando uma escola, na qual o mestre se supera sempre que pelo aluno é
superado; colégio em que se mata aula e não se é reprovado.
Está no olho do furacão com seu leme avariado, vendo as velas
lhe levarem por um mar de sereias; qual moinho que vira dragão diante de
um Quixote apaixonado. Não pensa e existe nem existe porque pensa: só
existe quando o pensamento que, por séculos, o leu calado, sente seu bafo
na orelha e escuta, aos gritos, seus palavrões sem palavras... O
Poema Contemporâneo não é só verso branco
nem rimado: é língua que se dobra e, dobrada, se desdobra numa vertigem
de fôlego e imagem; atropelando, sem papas na língua, a carne viva
da linguagem... O
Poema Contemporâneo desses tempos infames é um vagamundo
girando numa roda gigante, procurando Deus e o Diabo num carrossel de unicórnios
alados. É um alienígena similar aos ventos solares, irradiando sofisticada
energia sub-atômica, interrompendo a comunicação exagerada
dos óbvios ululantes, descodificando o Cogito, lavando a alma e dando outra
chance ao espírito excomungado. Não
é concreto nem parnasiano; nem simbolista nem modernista; nem lúcido
nem mentecapto: aceita-se como se aceita um vício, seja ruim, inútil
ou chato... O
Poema Contemporâneo é eterno enquanto dura sua inspiração
homeostática: evapora como éter e desaparece no mesmo instante que
desliga sua máquina... Maquinaria desejante de engrenagens mágicas
que, ao poeta, promete um status tão importante quanto o de miserável...
NOTA
2 Não existem poetas bons ou ruins, nem
poetas melhores ou piores; o que existe são poetas editados e não-editados
e quem tem o poder de decidir sobre a edição ou não deste
ou daquele poeta, fato teoricamente industrial e razoavelmente comercial, é
responsável direto pela existência das duas categorias não
existentes, criadas por razões única e exclusivamente políticas.
...de
repente, o Poeta pulou o muro do hospício e notou que o sol que brilhava
nas ruas era o mesmo que ele via no pátio da cidadela onde foi trancafiado
(com a vantagem de que ele continua a ver este sol na lua). Subitamente, sem qualquer
razão aparente, o Poeta tornou-se figurinha fácil e carimbada em
reuniões em que estão presentes os mais diferentes segmentos sociais,
gente de todas as idades, credos, sexos, raças, regionalismos e ideologias.
Não chega a ser vulgar; muito pelo contrário, tornou-se VIP e freqüenta
áreas de exclusão com pulseirinhas de acesso à mordomias
de baixa qualidade... Na
onda que começou a se espalhar pela praia, junto com gente de muito talento,
apareceram os doidos mais variados. Também entraram em cena: chatos de
todos os níveis (incluindo os insuportáveis, os pegajosos, os invejosos
e os vampiros anêmicos dispostos a sangrar otários); os oportunistas
(mais marotos do que malandros); os vigaristas (há casos relatados de tipos
que usaram o nome de eventos e dos poetas que deles participavam como organizadores
para abiscoitarem patrocínios que nunca chegaram ao seu destino); os tarados
(mais agoniados do que perversos); os drogados (e ex-drogados reformados pelo
positivismo dos AAs e NAs); os malucos (sedados ou não); e os bêbados,
cuja maioria se dá pelo simples fato de serem incentivados a doar o fígado
em prol de um divertimento que acaba se tornando inútil, contraditório
e bizarro... ...de
repente, todo mundo se sentiu apto a ganhar o apelido de Poeta, falando de amores
que nenhum Cupido entenderia, com versinhos de quem foi fodido e mal pago. Atores
de escalões próximos às figurações mais ordinárias
saíram das ribaltas para subirem degraus na nova escada disponibilizada,
portando-se como Artauds de segunda classe e cometendo crueldades dignas da mais
insuportável piedade. Problemáticos e desajustados conheceram
nas rodas de poesia, amigos que jamais poderiam ter conhecido em outras searas
e, em certos eventos, tal e qual acontece nos cultos protestantes, deram testemunho
de viva voz de suas melhoras psíquicas com depoimentos emocionados (só
faltou mesmo o brado de Aleluia!). Fato é que O
Poeta Contemporâneo tornou-se suspeito de um crime a ser cometido
muito antes de ter sido realizado. À sombra de papagaios ignaros, falando
uma língua que parece ter sido criada como um dardo para uma zarabatana
engasgada, o Poeta Contemporâneo protege
o que diz na voz de quem o ouve calado. Escreve poemas como testamentos em que
os bens a serem distribuídos após seu falecimento não podem
ser mensurados em centavos. Como um bicho-da-seda atarefado, entrega seus casulos
melados para que abelhas operárias produzam mel com o pólem das
flores do mal que um moderno cultivou num jardim do passado. O
Poeta Contemporâneo pega a pedra que Drummond entreviu no meio
do caminho e a instala numa funda capaz de derrubar Golias com a verve dos goliardos.
É um Macunaíma com mais ética do que muitos deputados. Usa
a camisa amarela de um russo para passear com americanos que caíram na
estrada. É um antropófago que só come carne assada em fogueira
de churrasco. Sabe que Rambo não é Rimbaud, apesar das armas
que estão sendo traficadas a torto e a direito ao seu redor e ao seu lado.
Traficante de ilusões, tornou-se um marginal que mimeografou seus lixos
pseudo-literários na esperança de vê-lo política e
corretamente reciclados num futuro capaz de constranger qualquer identidade com
o passado. Desafia os pudores da academia com seu violento e coloquial funk
suburbano, acintosamente sincopado e capaz de fazer com a gramática uma
salada de alhos com bugalhos. Canta bossa-nova desafinado. Navega num navio negreiro
de escravos alforriados. O Poeta Contemporâneo
não é um fingidor que finge ser dor a dor que deveras sente: é
um agoniado que tenta se livrar de um carma para o qual nem seu corpo nem sua
alma estavam preparados. Em muitos casos, afinado às tendências que
o escravizaram no círculo de giz caucasiano do neo-narcisismo alienante
das baladas noturnas de Poesia Falada, vaga
num mundo de ilusões cheio de ciladas. Não tem certeza sobre nada,
mas repete verdades como quem se livra de roupas usadas. Não tem garantias,
direitos, cidadania, aposentadoria, plano de saúde nem um emprego estável
com a atividade encantada pela qual labuta até os confins das madrugadas.
Só sabe que o jogo em que está metido corre solto à sua volta
e, mesmo com cartas marcadas, intimamente ele reconhece que o acaso estará
do seu lado a cada novo lançamento dos dados... NOTA
FINAL Os poemas conhecem a poesia de seus poetas. Os poetas conhecem
a poesia de seus poemas. Já a poesia que os surpreende depois, independe
totalmente do conhecimento dos dois.
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